Eliminação da Alemanha causa morte trágica de “brasileiro” no Líbano

São 22h30 em Beirute. Essa linda, charmosa e ainda dividida capital libanesa, está mais silenciosa que o normal. O jogo ao vivo nas televisões tirou as pessoas da rua? Não… No Líbano, as televisões vão para a rua!

Assim, em cadeiras, fumando suas narguilés, e trazendo suas cadeiras de casa, grupos de torcedores e torcedoras curtem cada instante da Copa do Mundo, regados à melhor comida do mundo, a fumaça sabor maçã do tabaco preferido pelos libaneses e muita vibração.

O futebol é de longe a maior paixão do Líbano, mesmo se o basquete é o esporte que traz algum reconhecimento internacional. O Brasil é de longe o mais amado no futebol deste país lindo. Mas dividido. A divisão profunda, e ao que parece, eterna, entre ruas, bairros, pessoas, resiste até à paixão ao apaixonante jogo da bola.

Já são 22h35. Ali, no Bairro de Hay Ellsello, menos de 15 minutos da linda e chique área de Alhamraa do centro da capital, mais de 30 amigos, vizinhos, conhecidos e alguns passantes, decidiram parar de fazer qualquer coisa e ver a história passar diante de seus olhos. A Alemanha, a campeã do mundo… perdendo para a Coreia do Sul.

Ali, todos libaneses, sem o time de seu país na Copa, cada um, adota uma seleção. Mohamed Zaher, já havia recebido há alguns meses de seu tio a gerência desse café, onde dezenas de pessoas vieram ver a Alemanha. Antes, ele já havia instalado cadeiras, a televisão, a antena, para que nada falhasse. Ele até baixou os preços dos produtos que vende, para atrair ainda mais gente ao café. Nessa capital dividida, o café de rua de Mohammed, era uma espécie de ilha de paz.

Em uma Beirute ainda com cicatrizes de guerra que teimam em não sarar, onde cristãos, maronitas, gregos ortodoxos, católicos romanos e muçulmanos, sejam xiitas, sunitas ou drusos e até judeus, curdos e armênios, encontram nesse bairro uma coisa em comum: o futebol.

Libaneses assistindo Copa do Mundo no café (Arquivo Pessoal)

O “bairro das escadarias”, como popularmente é conhecida Hay Elsello, tinha mais um dia de gritaria, de alegria de gols, de piadas e de muita bagunça. O futebol, aliás, estava conseguindo parar a guerra que sangra a vizinha Síria já há seis anos.

O Líbano de muitos povos, aquele país que até os anos 70, era apelidado de “A Suíça do Oriente Médio”, pela sua pastoral, pacífica e tranquila maneira de viver de seus povos, ama o futebol, ama o Brasil, e tenta encontrar um pouco de paz, durante as Copas do Mundo.

Mas a Alemanha, a campeã do mundo, arrebatou muitos torcedores após o 7 a 1, me explica Bilal Nassour, jornalista amigo, libaneses-raiz, muçulmano de cabeça boa, e acima de tudo, veterano de Copas do Mundo.

Desde 1990, Bilal me acompanha em todas as Copas, e sempre me diz da paixão pelo Brasil, da loucura que o Líbano se transforma nessa época: “É como se não soubéssemos o que é guerra, como se fossemos todos só torcedores, gente normal, sem nos preocuparmos com a religião, política ou nada além da bola que rola nos gramados e dos gols que nos fazem gritar de alegria!”

Mas Bilal agora é um homem mais triste. Porque Mohammed, o nosso herói dessa história, que gerenciava o Abo Ali Café, ali em Hay Elsello, já não prepara os cafés turcos bem fortes. Nem arruma as antenas, limpa as cadeiras para os clientes terem o prazer de curtir os jogos da Copa.

O Abo Ali café foi destruído. Queimado. Há apenas quatro dias. Mohammed foi assassinado. Esfaqueado, covardemente por dois vizinhos. Bilal perdeu seu primo. Está de malas prontas para voltar ao Líbano.  Seus amigos dizem que ele fique. “Voltar seria uma derrota para nós. Uma vitória para estes assassinos que tentaram calar a alegria que o futebol nos dá”, explica Bilal, soluçando de tristeza, no apartamento que ele alugou em Moscou para cobrir a Copa.

 

Autor: admin

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